segunda-feira, 11 de maio de 2015

Eu não gostava de aviões de papel

Eu não gostava de aviões de papel.

Eu não gostava de aviões de papel. Uma porcaria de papel dobrado que mal voa. Para mim, não havia graça nenhuma.
            Após algum tempo, já trabalhando na escola, percebi um menino que ficava sozinho na hora do intervalo jogando um aviãozinho de papel. Não dei muita bola. Com o passar dos dias, os outros garotos também perceberam a brincadeira do menino e começaram a se juntar, cada dia mais, na tão desinteressante brincadeira.
            Foi, então, que notei uma grande diferença nos aviões daquele garoto. Eles voavam de verdade! Não “de verdade” como nossos aviões que, sinceramente, acho incríveis – um bicho daquele tamanho, pesado, sem vida... Voando – mas o dele planava que era uma beleza.
            Era incrível quando ele soltava sua aeronave. O avião subia, subia, e planava pelo pátio da escola. Os outros garotos admiravam, pois seus aviões, geralmente, subiam e desciam numa violenta espiral.
            Ele ficava com pena e pedia para arrumar os aviões dos colegas. Parecia mágica! Ele punha o avião no chão, forçava as dobras já marcadas e zás: o avião voava, lindamente pelo pátio. Ele tinha o dom, com certeza ele tinha.
            Um belo dia, (que dia frio!) fiquei observando, concentrado, o seu avião planar. Fiquei imaginando aquele garoto, quando adulto, pilotando um avião, como aqueles da Força Aérea. Ou ele poderia trabalhar como piloto e viajar o mundo todo em seu avião. Esse deveria ser o sonho dele.
            Ele jogou mais uma vez o avião e eu o segui com o olhar. Ele planou como uma águia imponente no céu. Vi quando ele fez uma curva e percebi que ficava maior – cada vez maior e maior e maior e maior... Acertou em cheio o meu olho esquerdo. O garotinho veio correndo, pedindo desculpas. Eu não me importei, não havia me machucado. E cá entre nós: A culpa foi minha. Fiquei parado enquanto o avião vinha em minha direção.
            Peguei o aviãozinho do chão e fiquei olhando por alguns segundos. Fiquei imaginando o sonho daquele menino. Certamente se cumpriria. Eu torcia por ele. Lembrei-me dos meus sonhos de criança. Outrora queria ser médico. Depois policial. Hoje estou quase me formando educador. Os aviõezinhos que caíam logo que voavam, numa violenta espiral, eram meus sonhos, de certa forma, fracassados, passageiros. Eram os meus sonhos de criança. Agora, eu tenho um avião que planou e ainda plana mais que os outros: ser professor, meu maior sonho.
            Olhei para o menino, agora com o braço estendido esperando seu brinquedo de papel. Olhei bem fundo em seus olhos e perguntei:
            -O que você pretende ser quando crescer?
            Ele olhou para o avião e respondeu baixinho. Eu, sinceramente, me decepcionei. Não pela profissão que ele escolhera. Porque eu estava confiante que ele diria piloto de avião. Mas ele, simplesmente, disse:
            -Eu quero ser padeiro.
            E saiu pulando com o aviãozinho de papel na mão.


Samuel Pereira

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