Eu não gostava de aviões de papel.
Eu não gostava de aviões de papel. Uma porcaria
de papel dobrado que mal voa. Para mim, não havia graça nenhuma.
Após algum tempo, já trabalhando na
escola, percebi um menino que ficava sozinho na hora do intervalo jogando um
aviãozinho de papel. Não dei muita bola. Com o passar dos dias, os outros
garotos também perceberam a brincadeira do menino e começaram a se juntar, cada
dia mais, na tão desinteressante brincadeira.
Foi, então, que notei uma grande
diferença nos aviões daquele garoto. Eles voavam de verdade! Não “de verdade”
como nossos aviões que, sinceramente, acho incríveis – um bicho daquele
tamanho, pesado, sem vida... Voando – mas o dele planava que era uma beleza.
Era incrível quando ele soltava sua
aeronave. O avião subia, subia, e planava pelo pátio da escola. Os outros
garotos admiravam, pois seus aviões, geralmente, subiam e desciam numa violenta
espiral.
Ele ficava com pena e pedia para
arrumar os aviões dos colegas. Parecia mágica! Ele punha o avião no chão,
forçava as dobras já marcadas e zás: o avião voava, lindamente pelo pátio. Ele
tinha o dom, com certeza ele tinha.
Um belo dia, (que dia frio!) fiquei
observando, concentrado, o seu avião planar. Fiquei imaginando aquele garoto,
quando adulto, pilotando um avião, como aqueles da Força Aérea. Ou ele poderia
trabalhar como piloto e viajar o mundo todo em seu avião. Esse deveria ser o
sonho dele.
Ele jogou mais uma vez o avião e eu
o segui com o olhar. Ele planou como uma águia imponente no céu. Vi quando ele
fez uma curva e percebi que ficava maior – cada vez maior e maior e maior e
maior... Acertou em cheio o meu olho esquerdo. O garotinho veio correndo,
pedindo desculpas. Eu não me importei, não havia me machucado. E cá entre nós:
A culpa foi minha. Fiquei parado enquanto o avião vinha em minha direção.
Peguei o aviãozinho do chão e fiquei
olhando por alguns segundos. Fiquei imaginando o sonho daquele menino.
Certamente se cumpriria. Eu torcia por ele. Lembrei-me dos meus sonhos de
criança. Outrora queria ser médico. Depois policial. Hoje estou quase me
formando educador. Os aviõezinhos que caíam logo que voavam, numa violenta
espiral, eram meus sonhos, de certa forma, fracassados, passageiros. Eram os
meus sonhos de criança. Agora, eu tenho um avião que planou e ainda plana mais
que os outros: ser professor, meu maior sonho.
Olhei para o menino, agora com o
braço estendido esperando seu brinquedo de papel. Olhei bem fundo em seus olhos
e perguntei:
-O que você pretende ser quando
crescer?
Ele olhou para o avião e respondeu
baixinho. Eu, sinceramente, me decepcionei. Não pela profissão que ele
escolhera. Porque eu estava confiante que ele diria piloto de avião. Mas ele,
simplesmente, disse:
-Eu quero ser padeiro.
E saiu pulando com o aviãozinho de
papel na mão.
Samuel Pereira
Muito boa esse poema.
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